Estar em busca da Palavra nas palavras

Estar em busca da Palavra nas palavras

Durante o Sínodo da Palavra, no ano passado, o papa Bento XVI falou entre outras coisas da força incrível da palavra humana. "São as palavras que criam a história, são as palavras que dão forma aos pensamentos, os pensamentos dos quais vem a palavra. É a palavra que forma a história, a realidade".
A palavra tem uma importância fundamental na vida humana. De fato, as relações entre as pessoas se estabelecem por meio da comunicação verbal e da não verbal. No caso da comunicação verbal, especialmente no diálogo entre as pessoas, o uso das palavras pode manter e aprofundar as relações. Não existe, pois, verdadeiro relacionamento fraterno sem a comunicação, sem o diálogo. As palavras comunicam a nós mesmos.
Nas nossas comunidades religiosas, onde não partilhamos só o teto, mas a "vida", o empenho para melhorar a comunicação, é um dos desafios mais importantes. A justa interpretação dos fatos, a capacidade para transmitir reciprocidade e benevolência aos outros podem crescer onde está presente uma boa comunicação. As palavras nascem do coração e revelam o coração: "por isto saberão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros" (Jo 13, 35).
O diálogo ou a sua ausência pode constituir uma dificuldade como, por exemplo, os mal-entendidos, uma vez que os vocábulos podem ter significados muito diversos para os interlocutores. As palavras exprimem conceitos, idéias, a linguagem falada frequentemente é carregada afetivamente e ligada ao nosso passado, à nossa história, Cada palavra evoca sentimentos, lembranças.
Há palavras que fazem bem, há palavras que se gostaria de cancelar, palavra que dizem a verdade, palavras que enganam, palavras que fazem sonhar. Existem palavras que aquecem o coração, palavras inúteis, palavras pronunciadas sem motivo, palavras, das quais se arrepende de tê-las dito, palavras que dão um início, palavras que assinalam um fim. Há palavras que vão diretas onde se quer fazer mais mal, palavras que tiram a dor e aquelas que tiram a respiração, palavras que tornam-se recordações, palavras que encorajam, palavras de paz, palavras vazias, palavras que chegam no momento certo, palavras que salvam, palavras que se deseja que saiam da boca de alguém. Há palavras... tantas palavras...
Como são as palavras que saem da minha boca? Como ouço as palavras dos outros?
A palavra dá fundamento à realidade; para dizê-la bem é preciso primeiro tê-la escutado
Saber ouvir é, sem dúvida, a primeira característica de todo bom diálogo. De fato, quem não sabe ouvir não pode dialogar, corre o risco de ouvir a si mesmo, os conceitos formados antecipadamente, os próprios problemas e não o interlocutor que tem diante de si.
Aceitar a pessoa sem condições, favorece a comunicação. Falar "com tranqüilidade e respeito, é sempre bom e útil... Sempre prudente..."
(Catarina Troiani Carta 780).
Quando falo, devo pôr-me no lugar do outro que ouve. Quando ouço devo ser compreensivo, ou seja, entender os problemas do outro, perceber os seus sentimentos sem jogar com eles, colocar-me em sua situação, confiar na sua capacidade de ir para frente, respeitar a sua liberdade e a sua identidade, sem fazer juízos. A compreensão é o resultado do contato entre nós mesmos, com aquilo que sentimos e pensamos e com os outros assim como eles são.
No relacionar-se com o outro, a comunicação se coloca no plano da liberdade e da individualidade. E, então, olhar o outro ou falar com o outro ou ouvi-lo não terá mais a atitude de luta contra um inimigo a ser dominado, mas uma atitude de doação e de acolhimento do outro diferente de mim.
A Palavra de Deus é o fundamento de tudo, é a verdadeira realidade. "Realista é aquele que reconhece na Palavra de Deus, realidade aparentemente frágil, o fundamento de tudo. Realista é aquele que constrói a sua vida sobre este fundamento que permanece", "quem entra no movimento interior da Palavra, que em palavras humanas esconde e abre as palavras divinas" (Bento XVI). Nas nossas palavras passa a palavra de Deus.
Jesus Cristo é a Palavra de Deus. Ele disse as palavras de Deus, e se deu inteiramente a si mesmo.
Na Encarnação disse:
"Eu sou teu", na Paixão disse:
"Eu sou teu", na Eucaristia disse:
"Eu sou teu".
"Eu sou teu".
Peçamos ao Senhor que possamos aprender com toda a nossa existência a dizer esta palavra. Assim estaremos no coração da Palavra, assim seremos salvos. (Bento XVI, 6 de outubro de 2008).

Ir. M. Solange A. Novaes