São Francisco de Assis

São Francisco de Assis presente na alma de nosso povo


O Pai eterniza nos filhos pelos exemplos de sua vida e sua última vontade.

Na vida espiritual de nossa gente a presença de são Francisco de Assis é sempre muito viva e significativa. Para alimento desta espiritualidade bebemos da fonte de sua herança deixada a nós, através de seus dois Testamentos.
Dois são, propriamente, os Testamento de São Francisco: O Testamento feito em Sena e o denominado simplesmente de Testamento.

O Testamento feito em Sena, também chamado de Pequeno Testamento, foi escrito entre abril e maio de 1226. Segundo a Legenda Perusina, os companheiros de Francisco, julgando que ele estivesse para morrer, exclamavam: pai, o que será de nós? Abençoa-nos, assim como a todos os outros Irmãos. Além disso, deixa-nos as tuas últimas vontades (Lp 17).

Em resposta a este pedido, Francisco dita às pressas a frei Bento o resumo de toda a sua vida e da vida de todos os irmãos, presentes e futuros.
O outro Testamento, bem mais longo que o primeiro, foi escrito poucas semanas antes da morte de São Francisco, nele, o santo pai enumera os passos mais marcantes da graça de sua conversão.
Os Testamentos de São Francisco são, portando, a herança espiritual que ele deixou a nós, seus filhos. É a essência que perfaz a vida de todos os franciscanos, o resumo ao qual todos somos tidos, tomados e possuídos. É a raiz da qual nos vem a seiva da experiência evangélica de Francisco, a fonte originária de onde, sempre de novo, verte a Vida franciscana de cada um de nós e de toda a Ordem em todos os tempos.
Os Testamentos de São Francisco, tornam-se assim, a concreção mais apurada e mais consumada da Regra e da Vida franciscana.
No Testamento de Sena essa concreção vem resumida em três frases:
que os Irmãos se amem mutuamente;
sejam fiéis à Igreja;
e observem fidelidade à Senhora santa pobreza.
A respeito do grande Testamento, Francisco mesmo assim se expressa: E não digam os Irmãos: Esta é outra regra! Pois, esta é a recordação, a admoestação, a exortação e o meu testamento, que eu, frei Francisco pequenino, faço a vós, meus Irmãos benditos para que mais catolicamente observemos a rega que prometemos ao Senhor (Test 34).

Sem dúvida, estamos diante do documento mais significativo da Vida de Francisco e de toda a Vida Franciscana. Nele, Francisco recorda, reescreve e reafirma para si e para todos os demais irmãos, a vertente originária de sua vocação e missão?.


(Fontes Franciscanas 1 - São Francisco de Assis Escritos, 2ª edição, tradução: Frei Dorvalino Fassini, ofm, e equipe).

Testamento

  • O Senhor deu a mim, frei Francisco, começar a fazer penitência assim: pois, como estivesse em pecados, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos.
  • E o próprio Senhor me conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles.
  • E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, se me converteu em doçura da alma e do corpo; e, em seguida, me detive por um pouco e saí do século.
  • E o Senhor me deu tal fé nas igrejas para rezar e dizer simplesmente assim:
  • Nós te adoramos Senhor Jesus cristo, em todas as tuas igrejas, que estão no mundo inteiro, e te bendizemos porque pela tua santa cruz redimiste o mundo
  • Depois, o Senhor me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes, que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana, por causa da ordem dos mesmos, que se me perseguirem, ainda assim, quero recorrer a eles
  • E se tivesse tanta sabedoria quanta teve Salomão (cf. 1 Rs 4, 30-31) e encontrasse sacerdotes pobrezinhos deste século, nas paróquias onde moram, não quero pregar além da vontade deles
  • E a eles e a todos os outros quero temer, amar e honrar como meus senhores
  • E neles não quero considerar pecado, porque neles diviso o Filho de Deus, e são meus senhores.
  • E assim o faço porque nada vejo corporalmente do próprio altíssimo Filho de Deus, neste século, senão o santíssimo corpo e seu santíssimo sangue que eles mesmo recebem e somente eles ministram aos outros.
  • E esses santíssimos mistérios quero honrar, venerar acima de todas as coisas e colocar em lugares preciosos.
  • Onde quer que eu encontre os santíssimos nomes e suas palavras escritas em lugares ilícitos, quero recolhê-los. E rogo que sejam recolhidos e colocados em lugar honesto.
  • E devemos honrar e venerar todos os teólogos e os que nos ministram as santíssimas palavras divinas como aqueles que nos ministram espírito e vida (cf. Jo 6, 63).
  • E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrava o que deveria fazer, mas o próprio altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho.
  • E eu o fiz escrever com simplicidade e com poucas palavras e o senhor papa me confirmou.
  • Os que vinham para receber esta vida, davam aos pobres tudo o que podiam ter (cf Tb 1, 3); e estavam contentes com uma só túnica, remendada por dentro e por fora, com um cíngulo e bragas.
  • E mais não queríamos ter.
  • Nós, clérigos, os leigos rezavam o Pai-nosso (Mt 6,9-13); e de muita boa vontade ficávamos nas igrejas.
  • E éramos idiotas e súditos a tudo.
  • E eu trabalhava com minhas mãos (cf At 20, 34) e quero trabalhar; e quero firmemente que todos os outros irmãos labutem num labor pertinente à honestidade.
  • Os que não sabem trabalhar o aprendam, não pela cobiça de receber a recompensa do trabalho, mas por causa do exemplo e para repelir a ociosidade.
  • E se não nos derem a recompensa do trabalho, recorramos à mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta.
  • O Senhor me revelou que disséssemos a saudação: O Senhor te dê a paz (cf 2Ts 3, 16).
  • Cuidem-se os irmãos de receber, de modo algum, igrejas, pequenas e pobres habitações e tudo o que for construído para os irmãos, a não ser que sejam como convém à santa pobreza, que prometemos na regra, hospedando-se sempre aí como estrangeiros e peregrinos (1Pd 2, 11).
  • Ordeno firmemente pela obediência a todos os irmãos, onde estiverem, que não ousem pedir algum escrito à cúria Romana, nem através de si ou de pessoa intermediária, nem em favor de uma igreja, ou de outro lugar, nem em vista de pregação, nem diante da própria perseguição corporal.
  • Mas, onde não forem recebidos, fujam para outra (cf. Mt 10, 23) terra, para fazer penitência com a bênção de Deus.
  • E quero obedecer firmemente ao ministro geral desta fraternidade e ao guardião que lhe aprouver dar-me.
  • E quero estar cativo em suas mãos assim que não possa ir ou fazer além da obediência e da sua vontade, porque ele é o meu senhor.
  • E ainda que simples e enfermo, quero, todavia, ter sempre um clérigo que me reze o ofício, como está contido na regra.
  • E todos os irmãos atenham-se a obedecer assim a seus guardiães e a rezar o ofício segundo a regra.
  • E se encontrarem irmãos que não rezam o ofício conforme a regra e querem variá-lo de outro modo e não forem católicos, então, todos os irmãos, onde quer que se acharem, estejam obrigados pela obediência, lá onde depararem com um deles a apresentá-lo ao custódio mais próximo daquele lugar.
  • E o custódio esteja firmemente obrigado por obediência a guardá-lo fortemente, dia e noite, como um prisioneiro, de tal modo que não possa arrancar-se de suas mãos, até que o apresente pessoalmente às mãos do seu ministro
  • O ministro, então, esteja firme na obrigação de enviá-lo por obediência através de tais irmãos que, dia e noite, o guardem como um prisioneiro, até apresentarem-no ao senhor de Óstia, senhor, protetor e corretor de toda a fraternidade
  • E não digam os irmãos: esta é outra regra! Pois, esta é a recordação, a admoestação, a exortação e o meu testamento, que eu, frei Francisco pequenino, faço a vós, meus irmãos benditos para que mais catolicamente observemos a regra que prometemos ao Senhor
  • O ministro e todos os demais ministros e custódios por obediência estão na obrigação de nada acrescentar estas palavras nem tirar (cf Dt 4, 2; 12, 32) algo delas. 36 - E tenham sempre consigo este escrito junto à regra.
  • E em todos os capítulos que fazem, quando lêem a regra, leiam também estas palavras.
  • E ordeno firmemente por obediência a todos os meus irmãos, clérigos e leigos, que não façam glosas na regra nem nestas palavras dizendo: Assim devem ser entendidas.
  • Mas, como o Senhor me fez dizer e escrever simples e puramente a regra e estas palavras, assim entendei-as de modo simples e sem glosas observai-as até o fim em santa obra.
  • E todo aquele que observar estas coisas seja no céu repleto com a bênção do altíssimo Pai, e na terra (cf Gn 27, 27-28), repleto com a bênção do seu dileto Filho, com o santíssimo Espírito paráclito e com todas as virtudes dos céus e com todos os santos.
  • E eu frei Francisco, pequenino, vosso servo, por tudo quanto posso, vos confirmo dentro e fora esta santíssima bênção.
Testamento feito em Sena
Escreve de que modo bendigo a todos os meus irmãos que estão na Ordem e que virão até o fim dos séculos...

Pois, como não tenho forças para falar, por causa da fraqueza e do sofrimento da enfermidade, manifesto brevemente a minha vontade aos meus irmãos, nestas três palavras.

A saber: que em sinal de memória de minha bênção e do meu testamento sempre se amem diligente e mutuamente;

Sempre amem e observem a nossa senhora santa pobreza; e que sempre sejam fiéis e sujeitos aos prelados e a todos os clérigos da Santa Mãe Igreja.